sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Areia nos dentes

Fui desafiado a resenhar um livro que li recentemente. Meu amigo Eduardo Nunes foi quem me apresentou, recomendou e emprestou esse livro. Também foi ele quem fez o desafio, argumentando que, absurdamente, o autor, Antônio Xerxenesky, ainda não tinha visto nenhum gaúcho resenhar a sua história.

Deste modo, acredito estar sendo o segundo, já que meu amigo já postou em seu blog uma ótima resenha de Areia nos dentes.

Desafio aceito, portanto.



Areia nos dentes, o livro de estreia do escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, é muito mais do que uma história de faroeste. Também é muito mais do que uma história de zumbis. Ainda vai além de uma história de faroeste com zumbis. É a história de um mexicano bêbado contando uma história de faroeste com zumbis.

Um western com zumbis tem poucas chances de conseguir não ser bom. Mas quando esse western com zumbis é escrito da maneira como foi, daí essas chances são reduzidas a zero.

Mesmo que a história se passe numa época em que “o que importa é o que dizem os olhos e não as palavras”, é justamente na maneira de colocar suas palavras que Xerxenesky se mostra genial. As metalinguagens dão um show a parte, elas quebram o compasso de uma narrativa simples sem interromper o andamento dos fatos. Funciona muito bem e é usada na proporção correta, sem exageros.

Cada elemento que compõe a trama por si só já bastaria para sustentar qualquer história. O que dirá, então, se todos forem postos juntos em uma mesma: sol escaldante; noites sombrias; duelos; famílias inimigas; xerife durão; saloon com porta vai-e-vem; mistério; prostitutas; bêbados; mortes; zumbis; areia nos dentes etc.

Todos esses ingredientes estão presentes na história de Juan, um mexicano bêbado que decide
inventar contar a história de seus antepassados. Tal história se passa em uma época em que “os homens temiam a noite, e não as futilidades que temem hoje em dia”. Em Mavrak, uma cidade esquecida pelo tempo, a rivalidade entre os Ramírez e os Marlowes é o centro de todo o caos que se estabelece no pequeno povoado.

Os clichês estão por toda parte, o que é muito bom - principalmente para àqueles que, como eu, querem justamente isso.

Um assassinato ocorre. O clima fica ainda mais hostil. Outra morte, essa sem muita importância. Surge o xerife para botar ordem no lugar. Índios selvagens. Perseguição. O velho feiticeiro e seu ritual. Um duelo e mais uma morte. A noite varre a luz do dia. Os mortos voltam à vida. Tiros. Mais mortes. Cérebros devorados. Sangue derramado. Areia nos dentes.

A história de Xerxenesky é ainda melhor do que a de seu alter ego Juan. Uma história dentro de outra história. Mais do que isso, uma boa história dentro de uma melhor ainda...

O único problema do livro é que é curto demais, não em relação a outros livros, mas a ele mesmo. Não se quer parar de ler, não se aceita o fato de que a história chegou ao seu final.

Mas isso é um bom sinal.



Areia nos dentes – Antônio Xerxenesky
Não Editora
Páginas: 144
Preço: R$25,00


Sinopse

Em seu apartamento na Cidade do México, um velho, entre uma dose e outra de tequila, escreve a história de seus antepassados. É uma trama de rivalidade entre duas famílias, os Ramírez e os Marlowes, em um remoto povoado do Velho Oeste. Um assassinato e a vinda de um ortodoxo xerife compõem uma história que rompe os limites da própria literatura morte.

2 comentários:

Kelen Trisch disse...

Faroeste com zumbis? Já pra minha lista de livros que devo ler.
Deve ser uma leitura, no mínimo, interessante.

Gostei da resenha, amor.

Bjos!

Eduardo Nunes disse...

Esquecemos de mencionar a linda imagem mental de Vienna Marlowe tendo seu corpete tirado em cima de um monte de feno...

Baita livro.