segunda-feira, 12 de outubro de 2009

História sem fim

Já é de hábito vocês me verem reclamar da minha terrível falta de tempo. Mas, eu juro que esse não vai ser um post sobre isso. Só toquei no assunto porque me restam poucos minutos para contar essa extraordinária história, que aconteceu com meu amigo, o Cente. Lembram dele?

É com muita pressa que relato os acontecimentos abaixo:

Aconteceu na manhã de segunda-feira, conforme o Cente me contou. Estava na hora dele ir para o trabalho, entrou no carro e quando virou a chave... nada. O carro não dava nenhum sinal de que pretendia funcionar. Teria que ir de ônibus, se atrasaria um pouco, mas era melhor do que faltar o serviço.

Caminhou até o ponto de ônibus, que se situava a menos de uma quadra de sua casa. Eram por volta de sete horas de uma manhã agradável. Na parada havia poucas pessoas, duas senhoras e um rapaz, para ser mais preciso. As senhoras conversavam escandalosamente, falavam alto e ao mesmo tempo. Era a única coisa que o impedia de ouvir o canto dos pássaros, que pela sua melodia pareciam decretar que seria um belo e típico dia de primavera.

Irritado com a conversa das velhas, ficou aliviado ao ver que seu ônibus chegava. Entrou no coletivo e sentou-se o mais distante possível das duas. Como ambas tinham passe livre, devido à idade avançada, nem sequer passaram a roleta. Mesmo assim ele sentou a duas poltronas do fundo do ônibus.

Fazia muito tempo que ele não andava de ônibus. Tinha esquecido do quanto era bom escolher um assento e relaxar. Ficou pensando em por que não fazia isso sempre. Daí lembrou dos velhos tempos, das vezes que mofava na parada, nas longas viagens feitas em pé devido à superlotação e, principalmente, no tempo que perdia. Não, voltar a andar de ônibus estava fora de cogitação. Aquela seria a exceção, que, diga-se de passagem, estava sendo bem tranquila.

Poucos minutos de viagem tinham passado quando ele não pôde deixar de reparar naquela linda mulher que adentrava pela porta da frente. Era alta, pele de porcelana, cabelos longos e ondulados de cor escura. E aquela boca? Nossa, que boca! Seu cheiro também era perfeito, mesmo antes dela se aproximar - e sentar justamente ao seu lado - ele já havia se embriagado com seu perfume.

A mulher carregava uma mochila que não combinava muito com suas vestes elegantes. Não usava a mochila nas costas, segurava-a firmemente rente ao peito até o momento em que sentou ao seu lado, repousando-a sobre suas coxas – e que coxas!

Na parada em que a mulher embarcou, subiu também um homem, aparentemente de meia idade. Cente pensou, primeiramente, que estavam juntos, mas não. Ele sentou alguns bancos à frente, longe o bastante para eliminar qualquer hipótese de afeição entre os dois.

Meu amigo evitava olhar muito, mas não podia se conter. De tempo em tempo se surpreendia com os olhos repousados naquela bela mulher. Ela estava tão séria. Parecia até um pouco nervosa, disfarçadamente nervosa. O homem que havia entrado com ela olhava para trás o tempo todo, como se quisesse monitorar o momento em que ela desceria do ônibus. Esse parecia ser o motivo da apreensão da moça.

A viagem seguia e aquele mesmo ciclo se repetia: Cente contemplava a mulher; o homem virava-se para olhar a mulher; e a mulher permanecia em silêncio.

Cente cogitou puxar assunto. Mas o que diria? “calor hoje, hein?” ou talvez “será que chove?”. Deprimente. Melhor ficar quieto.

Mas, melhor ainda do que ficar quieto seria perguntar o nome dela. Isso, boa ideia. Vou perguntar o nome da moça. Perfeito, pensou.

Quando esboçou mexer os lábios para lhe perguntar seu nome ela se moveu subitamente, entregou-lhe apressadamente a mochila e disse “preciso descer na próxima parada, por favor, guarde isso pra mim”. Cente segurou a mochila sem saber o que dizer. Estava atônito. “Mas o que eu vou fazer com essa mochila?”, perguntou. “Guarde, em segurança, de preferência carregue junto com você”, respondeu a moça.

Cente não entendia o que estava acontecendo. Guardar a mochila, mas como assim? “Moça, essa mochila é sua não posso ficar com ela.”. Ela balançou a cabeça negativamente, a parada em que ela desceria estava quase chegando. “Escute aqui, só quero que você cuide dessa mochila por um dia, amanhã mesmo eu te encontro e você vai poder me devolver. Agora preciso ir, estou correndo perigo”. Dizendo isso, ela se levantou e puxou a campainha. Mas antes de se afastar, disse “é muito importante que você não abra a mochila, sob hipótese alguma. Repito, não abra a mochila” Disse até logo e se dirigiu até a porta de desembarque.

Enquanto o Cente me contava essa história eu mordia os lábios para não gargalhar na cara dele. Parecia óbvio que ele estava inventando aquela história toda. Sei que o Cente não é de contar mentiras, mas não dava pra levar a sério uma coisa daquelas. Era isso que eu pensava até ouvir o desfecho da história, foi mais do que convincente. Depois do que ele me disse não tive mais dúvidas...

O homem que havia entrado no ônibus junto com a mulher e que havia ficado observando a viagem inteira saltou do banco quando viu que ela estava descendo. Saiu correndo em direção a porta, tentando chegar antes de o motorista arrancar. Passou tão rápido pelo Cente que nem reparou que a mala havia ficado com meu amigo. Chegou a tempo e conseguiu descer na mesma parada da mulher.

Pela janela, Cente observava os dois gesticulando. Viu que o homem agarrou a mulher pelo braço e que ela apenas sorriu, apontando com os olhos na direção de Cente. O homem olhou para ele lá de fora, estava com sangue nos olhos. Tarde demais, o ônibus já estava em movimento.

Tirando o fato de estar carregando a mochila de uma desconhecida consigo, nada mais de anormal aconteceu no dia de Cente. Trabalhou, bateu o ponto e foi para casa.

Chegando em casa, largou a mochila no seu quarto e não pensou mais naquilo até a hora de dormir. Jantou, viu um pouco de televisão, leu seus e-mails, tudo dentro da rotina. Estava começando o Intercine quando o telefone tocou. Era a mulher. Antes de mais nada, ela perguntou se ele havia aberto a mochila. Cente disse que não. Em seguida ela disse que o encontraria em seu trabalho no dia seguinte para recuperar o que lhe pertencia. “Nos vemos amanhã, não esqueça de levar a mochila e, por favor, nem pense em abri-la”. Desligou o telefone.

Tudo era muito estranho. Como ela sabia onde ele trabalhava? Como tinha seu telefone? Não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas. Desligou a TV, apagou a luz e foi dormir. Ou melhor, tentou dormir. Não tinha jeito de pegar no sono. Só pensava naquela linda mulher e no dia esquisito que havia se passado. Ascendeu o abajur e decidiu “vou descobrir o que tem dentro dessa porcaria de mochila”. Levantou da cama, pegou a mochila e abriu...

O que meu amigo encontrou foi a coisa mais surpreendente que eu já vi. Mas, meu tempo está acabando. Tenho que ir. Não vou poder terminar a história. Vocês vão ter que esperar um outro dia para saber o que tinha na misteriosa mochila.

Desculpa, pessoal, é que eu já estou atrasado. Viram só porque eu vivo reclamando da falta de tempo?

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009