quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mudar o mundo depois de amanhã

Para se calcular a quantas anda o debate político num país ocidental do século 21, basta verificar como está o chamado movimento estudantil. Se os estudantes – principalmente os universitários – cultivam o hábito de questionar, sugerir, repudiar ou, vá lá, aplaudir os atos do poder público, significa que estamos trilhando uma vereda democrática interessante. Se, por outro lado, a pequena elite dos que frequentam as universidades se mostra apática diante do que lê (?!) nos jornais, quer dizer que as coisas não vão muito bem.

Eu me arriscaria a dizer que o Brasil está mais próximo da segunda hipótese. Conforme gira a roda da História, sofremos avanços e retrocessos institucionais: políticos perdem o pudor de se declararem parasitas do Estado, o populismo da situação convive amigavelmente com o fisiologismo da oposição e por aí a coisa vai. E aqueles que sonham com uma reação estudantil só veem centros acadêmicos pelegos e DCEs cada vez mais preocupados em promover festas de arromba. Eu acho justo.

É desolador o comportamento dos legisladores brasileiros. Em todos os níveis e esferas, o poder legislativo dá sinais de esgotamento e mediocridade. O Senado consegue a façanha de gastar mais do que cinco ministérios reunidos; a Câmara Federal anda às voltas com a farra das passagens, e por aí só ladeira a baixo.

A imprensa fiscaliza e divulga tudo isso, mas quem faz reverberar a insatisfação da (também chamada) sociedade civil? Ora, não será a classe média, preocupada que está em se manter na linha de consumo, muito menos os trabalhadores ou desempregados, já que receberam uma instrução escolar propositalmente falha. Num país como o nosso, esse papel cabe ao movimento estudantil. Mas, tirando as reações exaltadas contra provas e trabalhos escolares, qual foi a última vez que os estudantes brasileiros assumiram seu lugar na política? Na marcha dos caras pintadas contra a corrupção do governo Collor?

Gostaria de saber o que aconteceu com esse espírito de protesto. Está se preparando para as exigências do mercado de trabalho? Ou resolveu se refugiar na rave mais próxima? Sério, gostaria de saber de verdade. Não estou julgando meus colegas nem ninguém, tudo que eu disse aqui se aplica em mim mesmo. Não sinto queimar dentro de mim a chama da subversividade, não sou um contestador de nada que vá muito além dos meu próprio nariz.

É que eu acho que não deveria se limitar somente aos estudantes essa tarefa de mudar o mundo - se é que isso deveria ser tarefa de alguém. Não é possível mudar o mundo, e se hoje ninguém faz mais nada quanto a isso é porque historicamente ficou claro que não adianta nada.

Meu pai vive falando da força que o povo tem, de como ele poderia tomar o poder se ele se unisse. E meu pai odeia o atual governo estadual, odeia muito. Esses dias viu uma convocação sobre uma manifestação pró-impeachment desse governo promovida por vários sindicatos reunidos. Olhei para ele e perguntei por que ele não participava. Ele olhou pra mim e riu. Irônica e debochadamente, ele riu.

terça-feira, 21 de abril de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Histerismo automotivo

Muito esquisito... muito esquisito. Foram duas noites. Duas noites em que eu voltava para casa de madrugada, quando de repente minha moto começa a berrar alucinada. Sério, o alarme disparou do nada, sem motivo nenhum aparente, ele simplesmente disparou.

Quando o alarme dispara a corrente é cortada e a moto apaga. A razão disso é para que a moto só ande se o piloto estiver portando o controle remoto do alarme, caso contrário ela dispara o alarme e não liga mais até que o dono apareça. Tudo isso para o caso de um assaltante resolver roubar sua moto, ele vai andar por uns trinta segundos e quando estiver bem afastado de você ela vai parar com o alarme soando e as luzes piscando.

Foi o que aconteceu comigo, com a diferença de que eu estava com o alarme, e que também não tinha intenção de roubar minha própria moto de mim mesmo. E não aconteceu uma única vez, não, foram duas noites. Duas noites esquisitas.

Na primeira noite, eu voltava do trabalho rumando a casa da minha namorada. Eu ia rápido, já estava em Cachoeirinha quando de repente a moto começa a berrar alucinadamente, acendia suas luzes e se negava a andar. Ela berrava que nem uma patricinha que pisou no barro, fazia fiasco mesmo, sabe?

Pois bem, parei a moto, esperei que ela parasse com sua crise de nervos, montei nela e segui viajem. Mas não por muito tempo, na verdade só trinta segundos. Sim, até chegar na casa da minha namorada o alarme disparou muitas vezes, de trinta em trinta segundos eu parava, esperava e seguia o baile. Isso me irritou muito, não é muito legal passar por essas coisas durante a madrugada.

Passou-se uma semana do ocorrido e a moto não deu mais sinais de crise de nervos, eu já estava quase esquecendo aquilo quando, ontem, aconteceu tudo de novo, no mesmo horário e no mesmo lugar, a mesma frequência de disparos, luzes e gritos - da moto -, ou seja, a mesma merda. A diferença é que na primeira noite era sábado, nosso espírito no sábado é mais brando no que num dia de semana, e eu dessa vez não estava indo pra casa da minha namorada, mas sim para minha casa, onde eu pretendia dormir por uma hora até ir para a faculdade. Inacreditável!

Só que hoje eu refleti bastante e percebi o que aconteceu: minha moto surtou. Simplesmente isso. Ela está sempre comigo - ou estou sempre com ela? -, sempre passamos por esse tipo de coisa juntos. Só que a moto não aguentou, ela precisava expressar sua raiva, precisava desabafar, saca? E foi isso que ela fez, ela chorou, berrou, acendeu suas luzes - seria o nosso espernear - pela madrugada adentro e recusou-se a andar.

Eu compreendo bem ela, às vezes tenho vontade de fazer o mesmo. Tenho vontade de simplesmente parar, berrar, espernear - piscar as luzes se eu fosse uma moto - e me recusar a fazer aquelas coisas chatas e rotineiras as quais nos submetemos todos os dias.

Mas não tenho essa coragem, eu não posso fazer isso. Nem sei porque, só sei que não posso. Não consigo. Minha moto, a Soraya, tem muitos motivos pra fazer o que fez. Ela podia estar protestando por ter que carregar um cara que engordou quase vinte quilos em dois anos - maldito off - e que não consegue fazer nada sem ela. Bom, motivos ela tem de sobra.

E eu também tenho, todos têm, na verdade. Só que quantos são os que têm a coragem de botar tudo pra fora numa crise de fúria e histerismo? Poucos, quase ninguém.

Só que eu também posso estar errado, quem sabe só acabou a pilha do controle que por sua vez parou de mandar sinal para o receptor fazendo com que o alarme disparasse. Nunca saberemos.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

No quesito melhor do mundo


Poucos são aqueles que podem se considerar os melhores do mundo em alguma coisa. Como todos sabem, esse mundo é grande pra caramba, é difícil afirmar ser o melhor em algo dado a quantidade de gente que vive na terra.

O tamanho do mundo por si só já é um ponto a complicar qualquer alegação de superioridade suprema. Os próprios embates oficiais, tais como: torneios mundiais, campeonatos, olimpíadas e outras competições de âmbito planetário, não são 100% precisos, afinal ninguém pode garantir que não há, escondido em alguma caverna ou exilado nas montanhas geladas, alguém superior ao vencedor dessa competição.

Ser o melhor do mundo na coisa mais idiota que seja já é um feito, afinal, mesmo o melhor do mundo em lançamento de anão, em corrida de saco, em cuspi a distância ou, sei lá, par-ou-ímpar já pode encher os pulmões e dizer: "eu sou o melhor do mundo nisso".

Claro que ser o melhor do mundo em alguma coisa de pertinência maior seria muito melhor, ser o melhor do mundo em algo que, de fato, possa mudar a vida das pessoas - pra melhor ou pra pior, tanto faz - é muito mais gratificante do que para os demais melhores do mundo.

Eu sou o melhor do mundo em uma coisa, duvido que alguém seja capaz de me vencer no clássico jogo de SNes International Superstar Soccer Deluxe, ou até mesmo em alguma de suas adaptações brasileiras como o Campeonato Brasileiro 96 ou o Ronaldinho Soccer 97 ou 98. Eu garanto que no mundo não há ninguém melhor do que eu nesse jogo. Eu era imbatível, não havia adversário para mim e garanto ainda não haver. Eu conhecia melhor aquele jogo do que conheço a mim mesmo.

Hoje faz uns quatro anos que não jogo, mas tenho a mais absoluta certeza de que nem o próprio criador desse game seria capaz de me vencer. Eu sou, definitivamente, o melhor jogador de Superstar Soccer Deluxe do mundo. Eu até tinha um adversário a altura, ele jogava bem, também tinha um certo dom para a coisa, ele é dez anos mais velho do que eu, e nem assim pôde me superar. O cara treinava noite e dia com o intuito de me derrotar, ele até ensaiava uma vitória ou outra de vez em quando, mas nada muito ameaçador ao meu posto.

Um dia esse adversário cometeu o grave erro de alegar ser melhor do que eu. Ouvir aquelas palavras me fez criar sangue nos olhos, eu recebi aquilo como um desafio, deveria lutar pelo meu título. Resolvemos duelar, seria o melhor de cinquenta. Sim, cinquenta, para que a sorte não interferisse no resultado, algo que seria possível em um único jogo, mas não em cinquenta. Como era esperado, eu venci a maioria dos jogos, deixando para meu adversário o honroso posto de segundo melhor do mundo.

Ser o melhor do mundo no Superstar Soccer Deluxe nunca acrescentou nada na minha vida, não seria o mesmo se fosse o melhor do mundo em biomedicina, em física ou em sei lá mais o quê. Nada disso, esse status de melhor do mundo só serviu para contar vantagem sobre os adversários e escrever esse post, nada mais.

Gosto muito de muitas coisas, assim como gostava muito desse jogo em que me tornei o melhor. Não sei porque cargas d'água fui me tornar o melhor justamente num jogo de vídeo game. Fico imaginando Deus, ao me criar, com o dedo em riste apontado para mim e dizendo: "este será o melhor jogador de Superstar Soccer Deluxe do mundo todo.

Gosto muito de desenhar, mas não consegui me tornar o melhor nisso, muito longe disso na verdade, o pouco de talento que eu tenho só serve para impressionar algumas pessoas e para ilustrar uma coisa ou outra. Gosto muito de escrever, mas também não rolou, talvez se eu fosse um pouco melhor esse blog tivesse mais acessos. Gosto de música, já tive até uma banda, mas se dependesse dela para viver já estaria morto no primeiro mês. Gosto de literatura, pensei em escrever um livro, mas essa foi uma história sem fim, já que vai fazer um ano que eu não acrescento uma linha sequer à ela.

O que me motiva nessa história toda é o fato de que não precisamos ser os melhores do mundo em "algo" para fazer esse "algo", podemos ser amadores e ainda assim fazermos aquilo que gostaríamos de fazer, podemos fazer mal aquilo em que gostaríamos de ser os melhores. Não ser o melhor escritor não significa que não posso ser escritor.

O importante da vida não é ser o melhor, mas sim fazer aquilo que gostaríamos de fazer melhor que todos, e assim tentar melhorar sempre. Não precisamos ser bons em tudo o que gostamos de fazer, mas sim fazer tudo o que gostamos de fazer.

sábado, 4 de abril de 2009

O meu mundo sempre será vermelho

Era para ser um dia de luto, digo isso porque de fato havia morrido alguém. Minha família inteira velava a falecida, era um daqueles climas pesados de velório, onde qualquer sorriso era censurado veementemente. Acho que era jovem demais para ficar abalado com aquela morte, na verdade era uma tia de certa distância que havia morrido, eu podia simular certa tristeza, podia ser condolente e tudo mais, mas não estava triste, com pena sim, mas não triste.

Estava muito mais preocupado com outra coisa, algo que para mim era muito mais dramático no momento, era uma perspectiva grave de que meu
time poderia ser rebaixado naquela noite de quarta-feira, 1999 era o ano. Isso sim era um pesadelo.

Talvez a apreensão, a ansiedade, o medo do que poderia acontecer ao meu
time do coração moldaram em mim uma face muito mais consternada do que uma simples morte poderia causar. Lembro bem que viajei com meu pai aquela tarde, não falamos nada que não fosse relacionado ao jogo. Era um embate perigoso demais, o pavor nos olhos do meu pai não era diferente do pânico que estava estampado nos meus.

Pois o jogo estava começando enquanto o velório continuava, rostos tristes e olhos vermelhos de tanto choro por todo lado, mas eu só pensava em uma coisa: meu Colorado.

Diferentemente do restante da minha família, eu não compareci ao velório naquela noite, preferi ficar em casa, tinha motivos fortes para isso.

Fiquei sozinho, o rádio ligado e em bom volume esculpia no meu coração
exatamente o que se passava naquele duelo de vida ou morte. Eu lembro de ter ouvido o jogo de pé, corria e pulava de um lado para o outro, sofria como nunca, rezava, implorava piedade pra sei lá quem, repetia em voz alta que o pior não aconteceria.

O primeiro tempo acabou, sentei em uma cadeira, depois noutra, depois noutra e em pouco tempo já tinha passado por todos os assentos da casa, e o ciclo de trocas continuou até o segundo tempo começar. Eu tremia! Era cerca de trinta minutos do segundo tempo quando ouvi o barulho de um carro chegando, era o meu pai que voltava do velório, estava sozinho. Sim, ele havia fugido do velório com o intuito de ouvir o resto do jogo. Ele buzinou lá da rua e eu corri para dentro do carro. Ficamos ali, juntos dentro do carro, de mão dadas, unindo nosso sofrimento. O tempo passava ferozmente, o
placar continuava fechado, ameaçador.

Foi aos 36 minutos do segundo tempo que o
Elivélton se preparou para cobrar uma falta em favor do Inter. Era uma falta frontal, podia ser a última chance colorada daquele jogo terrível. Estava com os olhos fechados quando a imagem de Dunga mergulhando para fazer o gol se desenhou na minha mente por intermédio das palavras do locutor, foi uma explosão solitária de pai e filho. Nosso berro ecoou dentro daquele carro, as lágrimas corriam de ambos, lágrimas de felicidade, lágrimas de alívio. Eram lágrimas bem diferentes daquelas que corriam das pessoas no velório, mas eram tão ou mais sinceras do que elas.

O sofrimento não acabou com aquele
gol, o Palmeiras pressionava, acertou uma bola na trave, o tempo não passava, as luzes do estádio foram apagadas, a angústia era mortal e só se acabou com o apito final do juíz. Esse apito decretou que meu time permaneceria no seu lugar, de onde ele nunca saiu e nunca sairá: a primeira divisão.

Esse foi apenas um dos jogos emblemáticos desse
time, foi apenas um dos vários momentos de dor e alegria que esse clube me proporcionou. Quantos radinhos de pilha já vi meu pai quebrar na parede depois de uma derrota? Quantos berros de alegria já vi aquele homem, que me fez tão fanático quanto ele, soltar?

Hoje sou um cara muito diferente daquele menino que chorou no carro, mas não mudou em nada a paixão que foi semeada no meu peito ainda antes de eu pronunciar minha primeira vogal, essa paixão só cresceu. Sou um colorado da resistência, de uma geração sofrida, diferente dessa nova geração que nunca vai sofrer com uma flauta, essa geração de colorados campeões de tudo que têm argumentos fortes para se defender da corneta do torcedor de qualquer
time do mundo. Não, nem sempre foram flores para mim, eu tive que presenciar meu maior rival conquistar títulos importantes enquanto o meu time parecia estar sob alguma maldição.

Mas eu sempre soube que aquilo passaria, eu sempre soube que no final das contas nossa vez chegaria. A falta de títulos me fez ter ídolos de distantes passados quando era criança, meu pai me contava dos seus tempos de
coreano no Beira-Rio. Ele contava que ia ao estádia só para ver o placar, já que a vitória colorada se dava por certa. Meu pai me explicava o que cada estrela representava no distintivo. Meu pai sofria ao me ver chorar cada vez que ouvia alguém pronunciar a palavra Bahia na minha frente - eu era um bebê quando o Bobô estragou a festa colorada, tinha um ano apenas.

Pois eu passei por muita coisa, vi esse
time passar por tudo, nas horas ruins e nas horas boas eu sempre estava ali. Era um devoto, e o sou ainda hoje.

Sou um cara de poucas lágrimas, nem lembro da última vez que derramei alguma por algo que não fosse o Inter. Sim, se as lágrimas são o sangue da alma, a única maneira de me fazer sangrar é por intermédio desse clube, minha alma é vermelha como ele.

Hoje, 4 de abril de 2009, esse
time faz 100 anos, fato indiferente dada sua imortalidade, dada sua eternidade, mas que mesmo assim deve ser comemorado, deve ser celebrado com o orgulho por essa multidão de poucos. O Sport Club Internacional é para mim uma paixão tão grande quanto o sol, essa grande estrela que simpatiza tanto com nosso time, que todo dia antes de se despedir colore esse céu, de aspecto tão sem graça, com o rubro. Sim, o céu pode até ser azul, mas somente o crepúsculo avermelhado faz com que os olhos se voltem com admiração para ele.

Parabéns Internacional, tu és minha eterna paixão!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Relatos matinais de uma quinta-feira negra

É do laboratório de informática da faculdade que escrevo esse post. De onde estou consigo ver meus professores gesticulando em frente aos rostos sonolentos e desinteressados dos meus colegas. Eu deveria estar lá, mas não criei coragem de entrar uma hora e meia depois de a aula já ter começado.

Não, eu não dormi mais do que a cama, e nem demorei mais tempo do que o normal me arrumando, o que aconteceu foi bem mais além dos meus rotineiros motivos de atraso, foi algo bem mais revoltante.

Tenho até o final do intervalo para concluir esse texto, entrarei no segundo período da aula e vou tentar explicar para os professores o porquê dessas duas horas de atraso. Antes disso, vou contar pra vocês o que aconteceu.

Não quero decepcioná-los com a insignificância dessa minha história, assim, aqueles que esperam que meu atraso tenha sido decorrente de um ato heróico, como evitar um assalto, ajudar uma moça indefesa que está sendo molestada em um beco escuro, perseguir bandidos, presenciar um ataque alienígena, ou algo do gênero, que pare de ler por aqui. Sim, porque o que aconteceu não foi nada especial, e muito menos teve alguma pitada de glória, o que aconteceu foi comum e deprimente, simplesmente.

Ainda em Cachoeirinha, um acidente entre um motoqueiro e uma vã escolar se deu bem na minha frente. Tive que frear forte a minha moto para evitar fazer parte desse elenco. A batida foi feia, o motociclista – que como de praxe levou a pior – se contorcia de dor no asfalto.

Não gosto de presenciar essas cenas, porém não consigo evitar olhar quando presencio uma coisa dessas. Abalado com o que vi, segui caminho, já que não seria útil ali. O acidente trouxe lembranças recentes a tona, meses atrás era eu quem estava estirado no chão, em um acidente ridículo, dado que o único culpado foi o pneu que resolveu furar no meio da Freeway, enquanto o ponteiro da moto passava da marca dos cem por hora.

Esse acidente me fez ficar fora da aula e do trabalho por mais de um mês, de molho em casa e com o pé pra cima.

Com essas memórias em evidência já estava na Freeway, rumava com calma para a faculdade, com calma mesmo, pela direita, a uns oitenta por hora no máximo. E foi alí, naquela estrada maldita que comecei a sentir novamente os sintomas de que meu pneu mais uma vez estava sucumbindo. Não acreditei, depois daquele acidente fiquei meio fóbico ao andar de moto, inúmeras foram as vezes em que encostei a moto para verificar se estava tudo certo com os pneus.

Dessa vez foi a mesma coisa, encostei a moto já rindo de minha paranóia quando me dei conta de que de fato o pneu estava furado. Não conseguiria encontrar palavras para registrar aqui minha indignação com o ocorrido, eu saio de casa, levanto cedo para ir pra faculdade e acontece isso! Que seja, prossegui meu caminho, perigosamente pela direita, a moto cambaleante, manca, arrancando faíscas do asfalto com seu aro de alumínio batendo no chão. Os carros passavam por mim apressados, não sem antes buzinar em protesto contra esse idiota que atrapalha o já conturbado trânsito matinal. Mas o que eu poderia fazer? Seria pedir muito um pouco de compreensão para com esse fodido que voz fala?

A moto aguentou até o final da Freeway, quando a roda se desfez do pouco de estabilidade que ainda tinha e não foi mais possível que ela me transportasse, era hora de eu retribuir.

Carreguei a moto por uns dois quilômetros, até a primeira borracharia que encontrei. Sabe qual o cúmulo da zica? É uma borracharia não ter uma chave de roda para consertar o pneu desse fodido que segue voz contando os acontecimentos de uma trágica manhã de quinta-feira.

Andei mais um pouco até encontrar um estabelecimento que de fato poderia me ajudar, e realmente ajudou, o único transtorno foi ter que andar mais um quilômetro até encontrar um caixa eletrônico e sacar um pouco de dinheiro para pagar o homem.

Depois disso nada de anormal aconteceu, vim para a faculdade e é cá onde me encontro agora.

Os acontecimentos dessa manhã poderiam ser considerados normais. “Isso acontece” me dirão uns, “ é assim mesmo” dirão outros. O problema é que coisas assim vêm se somando na minha vida nos últimos meses, não é só no que diz respeito à moto, mas sim à vida em geral. Não são nem uma nem duas pessoas que já chegaram pra mim e com o dedo em riste disseram: “Tu é o cara mais azarado do mundo”.

Só que mesmo ouvindo isso o tempo todo, mesmo que me considerem o dono do maior espírito de porco da história eu não concordo com essas pessoas. A vida é feita de escolhas, e existem obstáculos para toda e qualquer escolha, eu sou só um cara em que tais obstáculos são definidos de formas diferentes, mais inusitadas talvez. Sim, porque é irônico que dois dias depois da recuperação de um grave acidente proveniente de um pneu furado, o novo pneu e a nova câmera – os melhores e mais caros que encontrei – se furem tal qual seus antecessores. Um preguinho era o culpado dessa vez, e na Freeway de novo, só que dessa vez sem tombo.

Foram tantas coisas bizarras que aconteceram ano passado que nem me proponho a contar aqui, achei que esse ano seria melhor, mas os acontecimentos dessa quinta-feira me colocaram em duvida quanto a isso. Mas eu não ligo, assim é mais engraçado, vou seguir não importa o que aconteça, o importante é não se abalar, o importante agora é entrar na aula e convencer o professor com a verdade, o importante é tirar as manchas de graxa da mão e achar alguém que me diga o que eu perdi no começo da aula. O importante é chegar em casa, ver minha família, assistir os Simpsons depois o Chapolin, esperar o final de semana chegar pra jogar bola com meus priminhos no meio da rua e de noite ver a minha amada com quem hoje completo três anos de namoro, cujo a saudade já me deixa demasiadamente louco.

Dizem que nessa vida só duas coisas importam: sorte e amor. Assim, enquanto a minha sorte não chega....